Que tal ver futebol sem saber quem está jogando? A experiência aconteceu, o resultado é fascinante e deve influenciar não apenas a maneira como se observa o jogo, mas também as análises de desempenho e até a maneira como atletas são recrutados. Mais importante do que tudo isso: pode ser uma ferramenta para derrubar preconceitos.
Sam Gregory é um cientista de dados esportivos que trabalha no Inter Miami FC, da MLS. Junto com outros quatro pesquisadores e a empresa canadense SportLogiq, Gregory conduziu um trabalho intrigante: eles recriaram três jogos de futebol por meio de animações, nas quais era impossível saber quem estava em campo. O trabalho foi apresentado no mês passado num simpósio sobre o uso de estatísticas em esporte nos EUA (Nessis).
Gustavo Poli: Lembrando Maradona
Com a ajuda da tecnologia foram reconstruídos o campo, a bola, os árbitros, os 22 jogadores, suas articulações e seus movimentos. Foram removidos elementos como arquibancadas, placar e placas de publicidade. Nessa reconstrução não era possível identificar se os jogadores eram negros ou brancos, homens ou mulheres.
Então as duas versões do mesmo jogo foram exibidas a grupos diferentes de fãs de futebol: um viu o vídeo com todos os detalhes, e outro só viu a animação, sem saber quem estava em campo. Os jogos não foram escolhidos ao acaso. Um deles foi Senegal e Polônia pela Copa do Mundo de 2018, vencido pelos africanos por 2 a 1.
Martín Fernandez:O esporte reage à homofobia
(Muitos relatos e análises sobre aquela partida concluíram que prevaleceu a “força física” de Senegal, um time formado por 100% de atletas negros, sobre a Polônia, formada por 100% de atletas brancos)
A mesma pergunta foi feita aos dois grupos. “Qual é o time mais atlético?” Entre os que viram as imagens da transmissão oficial, com todos os detalhes disponíveis, 70% responderam Senegal e 30% falaram Polônia. Entre os que viram apenas a recriação da partida, mas sem saber quem estava jogando, as respostas foram no sentido contrário: 62% responderam Polônia e 38% disseram Senegal.
Mansur:‘Fator Brasil’ atrapalha avaliação do trabalho de Renato Gaúcho no Flamengo
A outra parte do estudo também é interessante. A ideia era comparar dois jogos: um entre times da NWSL, a liga de futebol feminino dos EUA, e outro entre times da League Two, a quarta divisão do futebol de homens da Inglaterra. Os autores estimam que os jogadores da quarta divisão inglesa são mais bem remunerados do que a elite do futebol feminino dos EUA.
A pergunta feita aos dois grupos foi simples: “Qual dessas partidas têm mais qualidade?” As respostas entregam muito. Entre os que viram as transmissões originais, 57% escolheram o jogo dos homens, contra 43% do jogo das mulheres. Entre os que viram as recriações nas quais era impossível saber quem jogava, 59% escolheram a partida entre mulheres, contra 41% da partida entre homens.
Os próprios autores fizeram questão de registrar as limitações do estudo: só 105 pessoas participaram (a maioria homens), a tecnologia que reconstruiu as partidas não é perfeita e pode haver outros fatores, não identificados, a influenciar as respostas. Ainda assim, Gregory e seus parceiros concluem que agora existe uma ferramenta que desafia estereótipos enraizados, e cujo uso pode ter efeitos reais no jogo.
Fonte
Postado em 2021-11-05 05:00:45
O post Martín Fernandez: experimento revelador pode ser ferramenta para derrubar preconceitos no futebol apareceu primeiro em Noticias, Dicas e Atualidades.
source https://wordpressthememagazine.com/martin-fernandez-experimento-revelador-pode-ser-ferramenta-para-derrubar-preconceitos-no-futebol/
No comments:
Post a Comment