Sunday, 3 October 2021

Presente egoísta – Jornal O Globo


Ao passar em frente a uma prateleira cheia de brinquedos em um supermercado, não resisti a uma pequena caixinha colorida cheia de pecinhas. Brincar de Lego era um dos passatempos preferidos da minha infância.

E sei que minha filha Alice, de 3 anos, também já gosta bastante. No entanto, ao ler a indicação da caixa, vi que era recomendado para crianças acima dos 8 anos por ser composto por pecinhas bem pequenininhas que formavam um carro elétrico dirigido por duas meninas.

Mãe questionadora que sou, achei o brinquedo incrível, além de gostar da ideia de um carro movido a uma energia menos poluente, com duas meninas como protagonistas de uma cena geralmente destinada a meninos. Comprei a tal caixinha sedutora, mágica e disruptiva. Indo contra a recomendação de idade.

A dúvida que restava era: o presente era para a Alice ou para mim? Para a Alice, óbvio. “Onde já se viu uma mãe comprar um brinquedo para si?”, pensei, no mesmo instante. Por outro lado, também refleti: “Por que uma mãe não tem direito a um brinquedinho?”.

Ao chegar em casa, mostro a caixinha para Alice que imediatamente fica seduzida e grita: “Lego, Lego! Um presente para a Alice”. Esperta! Abrimos juntas a caixa e ela diz: “É a Alice que faz”. Ela está em uma fase que quer mostrar autonomia. Gosta de se vestir sozinha e não aceita quando dizemos que os sapatos e a roupa estão ao contrário.

Percebi que mesmo a mamãe aqui teria um desafio para dar vida ao tal carro elétrico. As peças eram menores do que eu esperava. Ao espalharmos no chão, observei Alice tentando encaixá-las e, em poucos minutos, já estavam por toda a parte. Com isso, fui ficando desesperada com a perspectiva de perder alguma parte e não conseguirmos mais montar o carrinho. Ficaríamos as duas frustradas.

Minha estratégia foi chamar o papai e pedir para distraí-la enquanto eu montava o automóvel. Assim, dividiríamos o brinquedo: eu ficaria com a parte da montagem, e ela com a de brincar. Perfeito na minha cabeça.

Com o manual na mão, Alice fora de cena e a porta fechada, lá fui eu. Suando e concentrada, revivendo momentos da infância, montei o carrinho em meia hora. Ao sair do quarto, orgulhosa e com o brinquedo na mão, mostrei o resultado para ela. Para minha surpresa, Alice responde aos berros: “É a Alice que faaaaz”. Com a carinha molhada de lágrimas e soluçando, ela começou a desmontar o carrinho e a jogar as peças para todos os lados.

Frustração total. Ela queria mesmo ter montado sozinha. Entendi que deveria ter assumido que este era um presente pra mim e não para ela. E, ao pensar num brinquedo para Alice, entendi que deveria refletir sobre a possibilidade de ela conseguir montar e brincar com ele sozinha, tal qual é o seu desejo atual, de construir sua autonomia, e não de receber um brinquedo já pronto.

É o típico presente que você dá para o outro pensando em você. Muito comum entre pessoas que querem fazer o bem para o próximo, mas estão pensando em si mesmas, mesmo sem perceber. Quem nunca?



Fonte

Postado em 2021-10-03 04:30:57

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