Sunday, 31 October 2021

Comidas clássicas de boteco no Rio, que vão da costela no bafo ao bolinho de feijoada, são tidas como patrimônio gastronômico


RIO — Em pleno século XXI, há quem se dirija ao Centro só para comer… mingau. A receita é simples, mas há mais de cem anos não sai do cardápio da Leiteria Mineira, patrimônio cultural do Rio, cujo prato mais famoso é justamente o preparado com leite, açúcar e aveia (ou Maizena ou Cremogema). Alguns clientes pedem para acrescentar uma gema. Outros, até duas. Por cima, vale polvilhar canela. De tão ligado à identidade da cidade, o mingau acabou contribuindo, alguns anos atrás, para que a casa, fundada em 1907, fosse eternizada de modo “oficial” pela prefeitura.

Na última semana, aconteceu algo parecido com uma iguaria não tão antiga, mas também um fenômeno. Trata-se do bolinho de feijoada, que acaba de ser declarado patrimônio cultural de natureza imaterial do Rio.

Mas a lista de “bens” gastronômicos que merecem o “tombamento” para nunca desaparecerem não acaba no quitute criado pela chef Kátia Barbosa, do Aconchego Carioca. Há delícias espalhadas pela cidade que, por decreto ou não, também refletem a arte, a tradição e o conhecimento dos cariocas. Entre os mestres das melhores cozinhas de bar do Rio, a costela no bafo do Cachambeer — boteco prestes a completar 20 anos, onde servir comida boa e farta é uma missão, cumprida sob a proteção de São Jorge — é uma unanimidade.

— São 500 quilos de costela por semana. Duas toneladas por mês. É muita costela para uma birosca perdida no Cachambi — brinca Marcelo Novaes, o Marcelão, atualmente uma das figuras mais representativas da boemia carioca e dono do Cachambeer, um dos points do prefeito Eduardo Paes. — A minha costela é marinada por 12 horas num tempero de ervas e assada na quentura, sem contato com o fogo. É o que a faz ficar macia e saborosa.

Marcelão elege também como clássicos do Rio o bolinho de bacalhau do Bar da Portuguesa, em Ramos; o bolinho de camarão com catupiry do Bracarense, no Leblon; e o cremoso bolinho de arroz do Bar do Momo, na Tijuca, feito com queijo (muçarela, prato e parmesão) e linguiça calabresa. Aliás, este último é pule de dez, assim como o bolinho de feijoada da Kátia, que vai começar a exportá-lo para os Estados Unidos e Canadá (a Portugal já chegou). Chef do Momo, Toninho Laffargue, por sua vez, cita como verdadeiros patrimônios, entre outros, a polentinha com rabada do Da Gema, na Tijuca; o contrafilé do Poleiro do Galeto, no Cadeg, em Benfica; o torresmo do Bode Cheiroso, no Maracanã; e o porquinho de quimono do Bar da Frente, na Praça da Bandeira.

Quem já é patrimônio municipal e não perde a fama é o Bar da Amendoeira, em Maria da Graça. O sucesso do lugar, de azulejos azuis e que tem o seu São Jorge no altar, se mantém muito por causa da carne-seca, servida de dois jeitos: em cubinhos passados em farinha de mandioca ou desfiada, feita na manteiga.

— A nossa carne-seca não tem nada de especial. Mas a gente passa a receita, e as pessoas não conseguem fazer igual em casa — diz Carine Rezende, herdeira, com a irmã Catherine, do bar fundado em 1962 pelo bisavô paterno.

Na Leiteria Mineira, na Rua da Ajuda, o que se diz é que, a cada gemada, são pedidos dez mingaus. Há quem venha de outros bairros do Rio no fim da tarde se fortalecer com a receita.

— Tem gente que pede mingau no almoço — revela o sócio José Augusto Pereira.

O Centro é naturalmente repleto de joias gastronômicas dos séculos passados. Na Rua São José, o Café Gaúcho é parada obrigatória para um lanche rápido há cem anos, mesmo não sendo oficialmente patrimônio da cidade. Para a clientela que não dispensa o pão com linguiça no balcão, isso chega a ser injustiça. Ainda mais quando vêm à tona histórias do passado, como a de que o lugar foi “point” de modernistas na primeira metade do século XX.

Maior estrela do cardápio, exposta numa parede de pé-direito alto, a linguiça fica à vista de todos numa estufa a mais de 200 graus com o molho, que leva pimentão, tomate e cebola feita no vinho tinto seco e sal.

— Antes da pandemia, servíamos 1.100 sanduíches no pão por dia, não só o de linguiça. Hoje não passam de 300 — lamenta João Tavares, sócio, desde 1961 na casa (onde começou como balconista) e louco pelo pão com linguiça até hoje. — Como no café da manhã!



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Postado em 2021-10-31 04:30:58

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